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Tese de docente do Campus Foz afere a qualidade da água em viveiros escavados

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A tese ‘Efluentes da piscicultura em viveiros escavados: caracterização e dinâmica dos nutrientes’, defendida por Anderson Coldebella na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) Campus de Toledo, estuda a qualidade da água de tanques de criação de tilápias que é devolvida ao meio ambiente. O estudo foi feito devido à alta produtividade de tilápias em tanques escavados na região oeste do Paraná, o que gerava uma preocupação dos produtores com a qualidade futura das águas captadas para a criação dos peixes.

A pesquisa foi realizada em parceria com uma cooperativa de produtores de pescados da região, o que possibilitou que a qualidade da água fosse analisada em nove áreas de criação em quatro diferentes municípios: Tupãssi, Nova Aurora, Cafelândia e Ubiratã.

Para aferir a quantidade de sólidos suspensos nas águas, Coldebella coletou amostras dos tanques em quatro níveis diferentes no momento da retirada dos peixes para abate: cheio, médio (com 60% da capacidade), na passagem de rede para captura dos peixes, e fundo (com cerca de 5% da capacidade). O que se verificou, foi que, nos últimos dois níveis (passagem de rede e fundo), a concentração de materiais sólidos estava acima do estipulado pela legislação ambiental, nas resoluções do CONAMA, nº 357/2005 e nº 430/2011.

Segundo Coldebella, a evolução conseguida pela piscicultura nas últimas décadas gerou impactos ambientais, que podem acontecer de duas formas: fuga das espécies do ambiente natural (o que gera desequilíbrio ambiental na região) ou por descarte de água poluída em rios ou outros corpos aquáticos. “O objetivo foi estudar essa carga de matéria orgânica, de nitrogênio e fósforo, que pode causar eutrofização do ambiente natural. Quando isso acontece, há uma queda brusca de oxigênio e, consequentemente, a gente acaba matando as espécies no ambiente”, observa Coldebella.

O processo de eutrofização acontece quando há um acúmulo de nutrientes na água, em geral de nitrogênio e de fósforo. O excesso de nutrientes leva ao desenvolvimento excessivo de algas, que deixam a água verde, que altera o processo de produção e consumo de oxigênio pelo processo da fotossíntese. Segundo Coldebella, há momentos em que o consumo de oxigênio é maior que a produção, em geral no período da noite, o que pode ocasionar a morte de peixes e outros seres vivos aquáticos.

De acordo com Aldi Feiden, orientador da tese, um dos fatores que interfere no aumento da concentração de sólidos na água, é a própria alimentação dos peixes. Segundo Feiden, do total de ração destinada à alimentação diária, 22% dos nutrientes são retidos pelos peixes, e o restante retorna ao meio ambiente através das fezes e urina dos animais, ou não chegam a ser consumidos.  “Um criador, quando estiver despescando e o vizinho, 500 metros abaixo a jusante [sentido da correnteza nascente-foz do rio], poderá estar bombeando aquela água para dentro de seu tanque. Isso acontece muito, se observar ali em Maripá, Nova Aurora e Toledo, aqueles rios são cascatas de 10, 20 até 30 produtores em sequência”, destaca Feiden.

Outro problema relacionado à ração identificado por Coldebella era a composição, rica em nitrogênio e fósforo. No caso da cooperativa onde o estudo foi realizado, a ração usada na alimentação dos peixes foi reformulada para utilizar ingredientes que possam diminuir a concentração dos componentes e permitir uma melhor conversão alimentar.

Outro aspecto que a tese levanta é a concentração de peixes por metro quadrado. Coldebella observou que havia produtores que criavam até 12 peixes/m². Com a alta concentração de animais, o peixe levava mais tempo para atingir o tamanho e peso ideal para abate, e também ocasionava na alta concentração de sólidos na água. Feiden atenta para o fato de que a ração dada em viveiros é maior, quanto maior a concentração, o que ocasiona em mais material proveniente da excreção (fezes e urina). “O peixe fica menos confortável e acaba atrasando o desenvolvimento dele, apesar de ter ração e as condições de temperatura, mas tem a questão do ambiente mais eutrofizado (com maior concentração de nutrientes), o que não é o ideal”. Aponta Feiden. Na tese, Coldebella faz um balanço de como ocorre a dinâmica de nutrientes em criações com cinco peixes por metro quadrado, e recomenda esta densidade para a região, que com o uso de sedimentação, pode ser uma atividade ambientalmente sustentável para a região.

Com o estudo, os pesquisadores sugeriram que fossem adotadas bacias de sedimentação, também conhecidas como “lagoas de decantação”, para decantar os sólidos presentes nos efluentes antes que a água fosse devolvida ao meio ambiente. Nestas lagoas, a água dos efluentes fica por algumas horas, até que os sólidos dispersos na água caiam no fundo da bacia e a água possa ser devolvida aos rios com uma concentração de sólidos dentro dos parâmetros legais. A sugestão foi acatada pela cooperativa que participou da pesquisa e implementada nos viveiros dos produtores cooperados.

As bacias de sedimentação nas resoluções de licença ambiental

A resolução conjunta de Ibama/SEMA/IAP nº 002/08, em seu artigo 5º, parágrafo único já determinava que deviam ser adotadas medidas preventivas para assegurar a boa qualidade da água devolvida ao meio ambiente e protegida da introdução de agentes patógenos, restrita às áreas de preservação permanente.

Em 2018, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP, atual Instituto Água e Terras – IAT) estabeleceu a portaria nº 215, que em seu artigo 6º colocava como obrigatória a presença de uma bacia de sedimentação para tratamento de efluentes para obtenção da licença ambiental de produção. Em março de 2020 a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Sustentável e Turismo (Sedest) elaborou a resolução nº 14/2020. Em seu artigo 13, a resolução estabelece como obrigatória a implantação de bacias de sedimentação para tratamento de efluentes em unidades de produção piscícola de porte médio, grande ou excepcional.

De acordo com Coldebella, os resultados dos estudos puderam determinar as dimensões das bacias de sedimentação. Coldebella defende que a bacia deve comportar de 15 a 20% do volume total de água dos viveiros para que ela tenha eficiência.

Texto: Daniel Schneider – Jornalista Residente

Assessoria de Comunicação Social da Unioeste


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